Geral / Fevereiro 22, 2018

Imprevisibilidades

Se há momentos absolutamente especiais, são aqueles em que acontecem coisas inesperadas e boas. Inesperadas porque já esperámos tanto por elas que começamos a duvidar seriamente se…

algum dia virão ou não a acontecer. Sempre a lutar que nem doidos, teimosos de dar dó aos mais relaxados, obcecados por uma ideia qualquer. A sofrer de dúvidas aqui e ali, será que isto vai valer a pena, será que vou chegar a algum lado, ou será que se vão todos rir de mim com aquele ar escarninho, tão próprio da portugalidade no seu pior. Inveja de quem se dá bem e sarcasmo por quem se esborracha, como se uma boa esborrachedela não fosse uma experiência tão válida como outra qualquer. Sempre se aprende mais qualquer coisa do que se se tivesse ficado quieto ou se nem sequer se tivesse tentado. Aprende-se a fazer de novo e a cometer novos erros. Ou a cometer os mesmos porque, ao mudar o contexto, não nos apercebemos que estamos a repetir padrões de funcionamento. É preciso estar com muita atenção e usar a vida como um laboratório para sermos tão analíticos e meticulosos ao ponto de não prevaricar duas vezes no mesmo erro. Ou evitar novos erros quando as circunstâncias mudam. E a maioria de nós não tem essa atitude, a de controlar variáveis e pôr hipóteses, para validar comportamentos e tomar decisões.

Portanto, quando acontecem coisas inesperadas e boas, daquelas que até já nos tínhamos esquecido que podiam estar para acontecer, visto terem levado um tempo que nos pareceu infinito a materializarem-se, a sensação é verdadeiramente mágica. É aí que nos sentimos mesmo orgulhosos de termos sido tão persistentes. Foi só e apenas porque não desistimos naquelas horas mais negras do desalento, que acabamos a viver os momentos tão ansiados das concretizações mais difíceis. Houve até alturas que acreditámos piamente que seria impossível chegar ao destino. Com tantas contrariedades palpáveis e serendipidades improváveis, esqueçam lá isso, não deve estar escrito que o desfecho seja esse, vamos seguir por outra direcção. Mas depois, paramos, há qualquer coisa, o corpo diz-nos na linguagem das células que se agitam em desconforto, que mudar de direcção é que não. Tenta-se outra coisa, faz-se diferente, procura-se alguém novo que acrescente ali algum ajuste. Mas não se desiste assim de um sonho onde pusemos toda a nossa energia, mesmo quando aqueles diálogos dentro da nossa cabeça nos dizem que andamos atrás de algo que nunquinha nesta vida irá acontecer.

Impossível para quem? Porquê? Quem disse? O que interessa o que disse quem disse? Os impossíveis dos outros não são os nossos impossíveis. Os nossos impossíveis só o são até nós os tornarmos possíveis, à nossa maneira. E para os outros que não acreditaram naquilo que não se vê com os olhos e só nós é que vimos com inderrubável convicção, os nossos possíveis continuam a parecer-lhes ironicamente impossíveis. Portanto, é um jogo de ilusões. Na realidade ninguém tem razão nem ninguém sabe objectivamente como vai terminar. Mas uma coisa é certa, as histórias só acabam no fim. E, um dia, quando menos se espera, um impossível de outro tempo surpreende-nos com a naturalidade fácil das coisas difíceis mas espantosamente possíveis.

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