Geral / Fevereiro 16, 2018

Os Tapetes e o Chão

Quem é que nunca sentiu um verdadeiro frio na barriga quando, de repente, lhe é arrancado o tapete debaixo dos pés?

É a verdadeira sensação de weeee que os cientistas atribuem aos momentos de felicidade extrema mas…ao contrário. É aquele espasmo do medo, mesmo na boca do estômago, não é o frissom do entusiasmo por algo que nos faz vibrar. É a antecipação de algo que desconhecemos, ali, mesmo na nossa frente, roubando-nos a estabilidade que pensávamos adquirida. É um momento de vulnerabilidade profunda, aquele em que percebemos que a vida não vai continuar a ser como a conhecemos, mas também não nos dá qualquer indicação de como vai passar a ser. As incertezas tomam o seu lugar, na frente do pelotão das expectativas, e enchem-nos de uma ansiedade incontornável.

Sentir o tapete a fugir debaixo dos pés faz lembrar a Alegoria da Lagosta. Aquele animal corajoso que se desfaz da própria carapaça que não o deixa crescer. Cada carapaça só cresce até um determinado ponto. E se a lagosta quer continuar a crescer, tem de se livrar dessa carapaça e esperar que outra maior nasça e acompanhe esse espaço de crescimento que precisa. É uma coisa muito esperta que a lagosta faz naturalmente, sem crises existenciais nem sentimentos de perda. É assim e pronto. Mas nós, na espécie humana, não estamos habituados a isto. Não mudamos de carapaça assim com essa facilidade. A nossa natureza pede-nos referências de segurança e laços de pertença. Somos animais de hábitos. Não é de ânimo leve que, a maioria de nós, toma decisões que rompem com o nosso mundinho, tal como o conhecemos.

E, então, muitas vezes, é preciso que a vida nos dê uns empurrões, uns puxões e uns abanões. Para ganharmos tomadas de consciência, para nos questionarmos se há mais para além disto, para corrermos riscos dignos desse nome e fazermos novas escolhas. É nas zonas de puro desconforto que os saltos quânticos se dão. Sem darmos por isso e cheinhos de uma miúfa que só nós é que sabemos. É nessas alturas que avançamos porque não temos outro remédio. A  vida não nos está a permitir nem adiar nem pensar duas vezes. Há um grito colado no nosso ouvido que não deixa margem para enganos. É para avançar, diz a voz. E agarramos-nos a todas as crenças positivas que conhecemos. Há males que vêm por bem. Quando se fecha uma porta abre-se uma janela. Tudo tem uma razão de ser e blá, blá, blá.

Tudo muito bonito. Não fazemos a mínima ideia se o que lá vem é ou não para melhor. Mas precisamos  acreditar que a vida vai voltar a ficar segura. Precisamos confiar que o curso do Universo nos está a encaminhar rumo ao sítio para onde queremos ir. Um dia atrás do outro e um passo de cada vez. Por mais tapetes que nos façam girar no ar, em acrobacias a desafiar a gravidade, é certo certinho que por baixo há-de haver sempre um chão onde aterrar.

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