Geral / Fevereiro 11, 2018

As Esperas

O que me custa mais quando ponho objetivos em marcha são as esperas. Voraz e impaciente como sou, tenho de tomar doses garrafais de uma paciência inexistente que vou buscar à experiência que herdei de outras esperas. E a experiência de outras esperas diz-me…

que não posso estar obcecada com um determinado resultado. Que tenho de diversificar o meu leque de projetos para que a minha atenção oscile de forma distribuída. É difícil. Porque às vezes aquele projeto, de entre os outros, é o que mais move o nosso entusiasmo, ou é o que nos traz maior rentabilidade, ou é o que faz depender dele uma sequência de outros projetos. Tantas e tantas vezes que parece que a cabeça não consegue pensar em mais nada e fica para ali a remoer em círculos. São as respostas que não chegam, os timings dos outros que são diferentes dos nossos, ou as urgências com pulseira vermelha que só nós é que sentimos.

É por isso que gosto de fazer históricos. Ir registando todos os pequenos avanços e recuos que é preciso percorrer em cada batalha que travamos. Só desta forma conseguimos recuperar todos os capítulos do que já foi feito. E isso é fundamental porque nos cria o fio condutor de onde viemos, onde estamos e para onde vamos. E, mais ainda, dá-nos o retrato vívido de todos os esforços que já encetámos quando nos deixamos abater por aquela sensação fictícia de que ainda não saímos do mesmo lugar. A memória escusa-se a recordar todos os pormenores de que são feitas as histórias. Só vai fixando os grandes trambolhões e as grandes conquistas, aqueles momentos que fazem vibrar as cordas das emoções mais intensas, para o bem ou para o mal. Os milhões de micro passos e as milhares de micro decisões que fomos tomando pelo caminho, e que são responsáveis pelos acontecimentos maiores que registámos, são apagados num ápice. Ficamos realmente aflitos ao tentar reconstituir todos os pontos de contacto que nos trazem ao momento presente.

Se calhar, por economia mental, contenção de espaço ou selecção natural. Se calhar porque são acontecimentos mais neutros que acabam por se perder no reconto da história. E as esperas também são isso. Aqueles lapsos de tempo que perdemos a noção que existem, quando o resultado chega. Quem é que se lembra que teve 2 longos anos a “namorar” um cliente quando fecha um negócio interessante? Quem é que se lembra que esteve 6 meses à espera de perder 5 kg quando atinge o resultado? Quem é que se lembra dos 9 meses que esteve à espera que nascesse aquele bebé desejado? Ninguém. As esperas não interessam. Não são o que mais nos marca e por isso as esquecemos num abrir e fechar de olhos. Mas, enquanto duram, às vezes as esperas matam-nos de ansiedade. Tentam fazê-lo, não há dúvidas disso. Mas as pessoas são demasiado fortes para falecimentos por antecipação. E, na maior parte dos casos, tipo 99,99%, levantamos os braços para o céu num agradecimento profundo, por termos sido tão persistentes e tão teimosos, ao ponto de resistirmos heroicamente às mais difíceis das nossas esperas.

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